Quanta água e energia a IA consome, e por que o Brasil virou destino de data center
Cada vez que você pede algo para uma IA, um servidor em algum lugar processa aquilo e um sistema de resfriamento gasta água para não superaquecer. Sozinho, é irrelevante. Multiplicado por bilhões de requisições por dia, vira um problema de recurso hídrico, e o Brasil resolveu se candidatar a sediar boa parte dessa infraestrutura.
Os números, sem drama
Uma interação com um sistema de IA consome, por estimativa internacional, de 10 a 25 ml de água (contando o resfriamento do data center e a água usada na geração da energia elétrica). Gerar uma imagem pode multiplicar isso por até 30. Um copo d'água por dezenas de perguntas, então. O problema não é a unidade, é a escala: o consumo global de água por data centers está hoje em torno de 560 bilhões de litros por ano e a Agência Internacional de Energia projeta cerca de 1,2 trilhão de litros até 2030, puxado pela computação intensiva que a IA exige.
Do lado da energia, um data center de porte médio consome o equivalente a mil residências. Os maiores chegam a 10 mil ou 50 mil casas, o consumo de uma cidade pequena. O Gartner projeta que as cargas de trabalho de IA vão representar de 15% a 20% de todo o consumo elétrico dos data centers até 2028.
Por que o Brasil entrou nessa corrida
Data center precisa de duas coisas em abundância: energia barata e, de preferência, limpa (para não anular o discurso de sustentabilidade das empresas que os contratam). O Brasil tem matriz elétrica majoritariamente renovável, custo de energia competitivo e posição geográfica que reduz latência para as Américas. Com isso, o país já concentra cerca de metade dos grandes data centers da América Latina, e o governo vem criando incentivos para atrair mais.
Onde mora o conflito
A energia, no Brasil, é o argumento mais fácil: sendo renovável, o data center que roda aqui tem pegada de carbono menor do que o mesmo data center rodando num país movido a carvão ou gás. Nesse ponto, sediar a infraestrutura no Brasil é ambientalmente melhor do que a alternativa.
A água é outra história, porque é um recurso local. Um data center instalado numa região com estresse hídrico compete por água com abastecimento urbano e agricultura da mesma bacia. Não adianta a média nacional de disponibilidade hídrica ser boa se o projeto está num ponto onde ela não é. Pesquisadores da UNESP alertaram, em 2026, justamente para esse descompasso: incentivo federal para atrair os projetos, sem uma régua clara sobre onde eles podem ou não consumir água.
Já houve caso, no exterior, de projeto bilionário cancelado por resistência de comunidade local preocupada com o abastecimento. É um risco real de negócio, não só ambiental.
O que dá para fazer diferente
Tecnicamente, o consumo de água de um data center varia muito conforme o método de resfriamento. Sistemas a ar ou com circuito fechado usam pouca água mas gastam mais energia; sistemas evaporativos economizam energia mas consomem muita água. A escolha depende do clima local e de qual recurso é escasso ali. Um projeto bem dimensionado para uma região quente e seca não usa o mesmo resfriamento de um projeto no Sul.
Do lado regulatório, a discussão que está começando no Brasil é se o licenciamento ambiental desses empreendimentos deveria tratar consumo hídrico e localização como critério central, e não como detalhe. Hoje, na maior parte dos casos, não trata.
Perguntas frequentes
Usar IA "gasta muita água"? Devo parar de usar?
No nível individual, o consumo é pequeno e parar de usar não muda o quadro. O que muda o quadro é como e onde a infraestrutura é construída e regulada.
Data center no Brasil é bom ou ruim para o meio ambiente?
Depende do lugar. Pela energia renovável, é melhor do que rodar a mesma carga em país de matriz suja. Pela água, o impacto é inteiramente local: bom numa bacia com folga, problemático numa bacia sob estresse.
Existe data center que não usa água?
Existe resfriamento a ar e a circuito fechado, que usa pouca ou quase nenhuma água, mas em troca consome mais energia. Não existe opção sem custo, só troca de qual recurso pesa mais.
Escrito por
Anderson TeixeiraAnalista e desenvolvedor de sistemas, com atuação em martech e marketing. Fundador da TXHOPE. Já construiu plataformas de gestão ambiental. Escreve sobre inteligência artificial, sistemas públicos e o custo ambiental da tecnologia. Saiba mais
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