Por que algumas cidades são muito mais quentes?

Por Fabricia Rio Branco29 de setembro de 20265 min de leitura
Compartilhar
Vista aérea de uma cidade mostrando o contraste entre prédios densos com telhado verde e um parque arborizado ao lado

Algumas cidades ficam mais quentes porque o asfalto, o concreto e os prédios substituem o solo natural e a vegetação, e esses materiais absorvem, armazenam e liberam mais calor do que uma área arborizada. Esse fenômeno se chama ilha de calor urbana, e é por isso que duas cidades com o mesmo clima podem ter experiências térmicas bem diferentes, dependendo de como foram construídas.

Você já saiu de uma área arborizada e entrou numa região cheia de asfalto e concreto percebendo que a temperatura parecia mudar completamente? Isso não é apenas impressão, é a transformação do solo natural em ruas, estacionamentos, calçadas e edificações alterando a forma como a cidade absorve e libera calor.

É justamente por isso que duas cidades podem ter condições climáticas parecidas, mas experiências térmicas bem diferentes.

Por que o asfalto e o concreto deixam a cidade mais quente

Materiais como asfalto, concreto e determinadas coberturas absorvem radiação solar e armazenam parte dessa energia. Durante o dia, a superfície fica aquecida, e depois parte desse calor é transferida para o ambiente e continua sendo liberada mesmo após o pôr do sol.

Quando existe muita área impermeabilizada e pouca vegetação, também há menos disponibilidade de água para processos naturais de resfriamento por evaporação. Por isso, uma cidade com grande quantidade de pavimentação, edificações e pouca cobertura vegetal tende a criar condições favoráveis ao aquecimento urbano.

A falta de árvores também influencia?

Muito. Árvores e vegetação ajudam a reduzir temperaturas principalmente por dois mecanismos: sombreamento e evapotranspiração.

A sombra diminui o aquecimento direto de calçadas, veículos, fachadas e outras superfícies. Já a evapotranspiração envolve a transferência de água da vegetação para a atmosfera, contribuindo para o resfriamento. Por isso, arborização urbana não deve ser vista apenas como uma questão estética, ela também pode fazer parte das estratégias de adaptação climática das cidades.

Verticalização e circulação do ar

A forma como os edifícios são distribuídos também importa. Prédios altos, ruas estreitas e elevada densidade construtiva podem alterar a circulação do ar e a exposição das superfícies à radiação solar.

Mas é importante não simplificar: verticalização, por si só, não significa necessariamente uma cidade mais quente. O resultado depende de fatores como geometria urbana, materiais, ventilação, orientação das edificações, vegetação e condições climáticas locais.

Temperatura da superfície é igual à temperatura do ar?

Não, e essa é uma diferença importante. Um telhado, uma calçada ou uma área de asfalto pode apresentar uma temperatura de superfície muito elevada, enquanto a temperatura do ar medida por um termômetro é outra variável.

Por isso, estudos de ilhas de calor podem utilizar diferentes métodos e instrumentos, inclusive imagens de sensoriamento remoto para avaliar a temperatura da superfície. Um estudo realizado em São Paulo, por exemplo, identificou diferenças superiores a 8°C na temperatura da superfície entre determinados ambientes urbanos, destacando a influência da cobertura vegetal.

Como reduzir a ilha de calor urbana

Não existe uma única solução. O planejamento urbano pode combinar diferentes estratégias, como:

  • Arborização e ampliação da cobertura vegetal
  • Telhados verdes
  • Coberturas com maior refletância solar
  • Pavimentos permeáveis
  • Pavimentos com características de menor aquecimento
  • Parques, praças e corredores verdes
  • Planejamento da ocupação urbana considerando ventilação e conforto térmico

A EPA (agência ambiental dos Estados Unidos) aponta vegetação, telhados verdes e pavimentos mais adequados entre as estratégias utilizadas para reduzir o efeito de ilha de calor.

No Brasil, a adaptação climática das cidades também vem ganhando espaço nas políticas públicas. O Ministério das Cidades destaca a necessidade de incorporar a perspectiva climática ao planejamento urbano e de considerar as características e vulnerabilidades de cada território.

Perguntas frequentes

Ilha de calor acontece somente em cidades grandes?
Não. O fenômeno pode ocorrer em diferentes áreas urbanizadas. A intensidade depende das características do território, como ocupação do solo, vegetação, materiais utilizados e condições meteorológicas.

Árvores realmente diminuem a temperatura?
Sim. Elas fornecem sombra e contribuem para o resfriamento por evapotranspiração. A eficiência, entretanto, depende da espécie, disponibilidade de água, localização e características do ambiente urbano.

Telhado verde ajuda a diminuir o calor?
Sim. A vegetação sobre a cobertura pode reduzir o aquecimento da superfície do telhado e contribuir para o resfriamento do entorno.

Pavimento permeável resolve a ilha de calor?
Não sozinho. Pavimentos permeáveis podem contribuir para estratégias de resfriamento e manejo da água, mas precisam ser avaliados dentro de um conjunto de soluções urbanas.

Ilha de calor urbana tem relação com as mudanças climáticas?
São fenômenos diferentes, mas podem se combinar. O aquecimento climático pode aumentar a exposição das cidades ao calor, enquanto características da urbanização podem intensificar as temperaturas localmente.

No fim, o que isso significa

Quando uma cidade perde vegetação e substitui o solo natural por concreto, asfalto e edificações, ela também modifica seu próprio comportamento térmico. Por isso, combater a ilha de calor não significa simplesmente plantar árvores. Significa pensar em solo, água, vegetação, materiais, edificações, circulação do ar e planejamento urbano como partes do mesmo sistema.

Talvez essa seja a parte mais interessante: o calor que sentimos na cidade também pode ser, em parte, consequência de como decidimos construir essa cidade.

Fontes e referências

  • Ministério das Cidades, Cidades e Adaptação Climática: Cartilha para Estados e Municípios (2025/2026). Ministério das Cidades
  • Ministério das Cidades, Plano Clima Adaptação - Cidades. Ministério das Cidades
  • Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), 2025. Ministério do Meio Ambiente
  • U.S. EPA, Guide to Reducing Heat Islands. EPA
  • U.S. EPA, Using Trees and Vegetation to Reduce Heat Islands. EPA
  • U.S. EPA, Using Green Roofs to Reduce Heat Islands. EPA
  • BARROS, Hugo Rogério; LOMBARDO, Magda Adelaide. A ilha de calor urbana e o uso e cobertura do solo em São Paulo-SP. GEOUSP Espaço e Tempo, v. 20, n. 1, 2016. GEOUSP/USP
#ilha de calor urbana#clima urbano#arborização urbana#planejamento urbano#mudanças climáticas
FR

Escrito por

Fabricia Rio Branco

Engenheira ambiental, CEO da FRTB Consultoria Ambiental e mais de 12 anos de experiência com licenciamento, gestão ambiental e energia solar. Saiba mais

Receba os próximos posts por e-mail

Sem spam. Só conteúdo novo sobre clima, energia solar e sustentabilidade, direto na sua caixa de entrada.