Terras raras: por que o mundo olha o subsolo do Brasil

O mundo está de olho nas terras raras do Brasil porque o país tem a segunda maior reserva conhecida, cerca de 11,4 milhões de toneladas segundo a ANM, mas ter o minério no subsolo não significa dominar esse mercado. Entre identificar um depósito e fabricar um ímã de alto desempenho existe uma cadeia tecnológica complexa, e é nela que está o verdadeiro desafio para o Brasil.
Nos últimos anos, as terras raras deixaram de ser um assunto restrito à geologia e à indústria mineral para entrar nas discussões sobre tecnologia, transição energética, segurança econômica e geopolítica. O Brasil aparece com frequência nesse debate porque possui reservas expressivas e potencial geológico ainda em avaliação. Mas a cadeia passa por mineração, beneficiamento, processamento químico, separação dos elementos, produção de óxidos de elevada pureza, metais, ligas e componentes industriais, e é justamente nessa diferença que está uma das questões mais importantes para o país.
O que são terras raras e por que elas se tornaram tão importantes?
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados em diversas tecnologias modernas, especialmente eletrônicos, ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, sistemas de defesa, catalisadores e outras aplicações de alta tecnologia.
O grupo reúne os 15 lantanídeos (lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio), além do escândio e do ítrio, que apresentam características físico-químicas semelhantes.
O nome pode causar confusão: esses elementos não são necessariamente "raros" no sentido de praticamente inexistirem na natureza. O próprio USGS (serviço geológico dos Estados Unidos) destaca que alguns possuem abundância relativamente significativa na crosta terrestre. O problema é encontrá-los em concentrações, mineralogias e condições que permitam seu aproveitamento econômico e, depois, separar elementos que possuem propriedades químicas muito semelhantes. Por isso o valor estratégico das terras raras não está apenas na existência do minério.
Para que servem as terras raras?
Talvez você nunca tenha comprado algo identificado como "produto com terras raras", mas provavelmente usa tecnologias que dependem direta ou indiretamente desses elementos. Neodímio e praseodímio, por exemplo, são importantes para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, e disprósio e térbio podem ser adicionados em determinadas aplicações para melhorar o desempenho desses materiais, inclusive em temperaturas mais elevadas.
Esses ímãs podem estar presentes em motores de veículos elétricos, geradores de determinadas turbinas eólicas, discos rígidos, equipamentos eletrônicos e outros sistemas que combinam elevada força magnética com dimensões reduzidas. Outros elementos têm aplicações em catalisadores, polimento de vidros, cerâmicas, lasers, materiais luminescentes, equipamentos médicos, telecomunicações e tecnologias de defesa. Celulares e computadores também podem utilizar terras raras em diferentes componentes, embora em pequenas quantidades.
Terras raras estão nas baterias dos carros elétricos?
Aqui existe uma confusão comum. As terras raras podem aparecer em alguns tipos de baterias e tiveram aplicações importantes, por exemplo, em baterias de níquel-hidreto metálico. Entretanto, elas não devem ser tratadas como os principais minerais das baterias de íons de lítio atualmente utilizadas em grande parte dos veículos elétricos.
Nessas baterias, minerais como lítio, níquel, cobalto, manganês e grafita podem ter papel muito mais direto, dependendo da química utilizada. Nos veículos elétricos, a importância das terras raras está fortemente relacionada aos ímãs permanentes de determinados tipos de motores elétricos, uma diferença técnica pequena na aparência, mas importante para compreender corretamente a cadeia da transição energética.
Por que as terras raras viraram uma questão geopolítica?
Porque tecnologia também depende de matéria-prima e, principalmente, de capacidade industrial. Países que pretendem ampliar a fabricação de veículos elétricos, equipamentos de geração renovável, sistemas eletrônicos avançados e tecnologias de defesa precisam considerar a segurança das cadeias de fornecimento dos materiais usados nesses produtos.
Quando mineração, processamento e separação ficam muito concentrados geograficamente, interrupções comerciais, decisões políticas ou conflitos podem afetar indústrias localizadas a milhares de quilômetros da mina. Por isso, terras raras passaram a ser discutidas junto aos chamados minerais críticos e minerais estratégicos.
No Brasil, esse debate ganhou um novo marco em setembro de 2026, com a sanção da Lei nº 15.506/2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). Entre seus objetivos estão fomentar pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana, além de estimular maior agregação de valor no território brasileiro. Ou seja: a discussão atual não é apenas sobre retirar minério do solo, é também sobre quem tem tecnologia para transformá-lo em produtos de maior valor agregado.
O Brasil tem terras raras?
Sim, e em quantidade relevante. Segundo o Sumário Mineral Brasileiro 2025, da Agência Nacional de Mineração (ANM), considerando dados de 2024, as reservas mundiais de terras raras utilizadas na publicação totalizavam aproximadamente 81,1 milhões de toneladas de ETR contido.
| Região | Reservas aproximadas | Participação |
|---|---|---|
| Mundo (total considerado pela ANM) | 81,1 milhões de toneladas | 100% |
| China | 44 milhões de toneladas | cerca de 54% |
| Brasil (provadas e prováveis) | 11,4 milhões de toneladas | cerca de 13,9% |
Na comparação apresentada pelo órgão, o Brasil aparece atrás da China e à frente de Índia, Austrália, Rússia e Vietnã. Esse dado precisa ser lido com cuidado, porque estimativas de reservas podem mudar conforme novas pesquisas geológicas, critérios técnicos, viabilidade econômica e atualização das bases oficiais.
As ocorrências brasileiras estão relacionadas a diferentes ambientes geológicos. A ANM cita, entre outros, depósitos associados a Araxá, Poços de Caldas e Tapira, em Minas Gerais, Catalão e Minaçu, em Goiás, e Pitinga, no Amazonas, além de ocorrências em São Paulo, Rio de Janeiro, Rondônia e outras regiões. Em 2026, o Serviço Geológico do Brasil também continuou trabalhos de avaliação do potencial de terras raras em novas áreas, mostrando que o conhecimento geológico brasileiro sobre esses recursos ainda está sendo ampliado.
Ter reservas não significa dominar a cadeia produtiva
Este talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão. Um país pode possuir um enorme recurso mineral e, mesmo assim, capturar apenas uma pequena parte do valor econômico gerado pela cadeia. O processo pode ser simplificado nestas etapas:
- Pesquisa geológica
- Mineração
- Beneficiamento
- Processamento químico
- Separação e purificação dos elementos
- Produção de óxidos
- Metais e ligas
- Ímãs e outros materiais
- Componentes e produtos tecnológicos
Quanto mais avançamos nessa cadeia, maior tende a ser a complexidade tecnológica. A própria ANM registrou que a produção beneficiada brasileira começou a ganhar novo impulso em 2024 com as operações da Serra Verde, em Minaçu (GO), em depósito de argilas iônicas. Ao mesmo tempo, projetos do CETEM mostram que o país continua desenvolvendo competências justamente nas etapas de separação, purificação, redução, refino, produção de ligas e fabricação de ímãs. Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia também iniciou estudos para subsidiar uma Estratégia Nacional de Terras Raras, buscando organizar o desenvolvimento dessa cadeia no país.
Na minha avaliação, esse é o ponto que deveria receber tanta atenção quanto o tamanho das reservas brasileiras. Possuir o recurso é uma vantagem geológica, transformar essa vantagem em capacidade tecnológica, industrial e ambientalmente responsável é outro desafio.
Quais são os impactos ambientais da mineração de terras raras?
Terras raras são importantes para tecnologias associadas à transição energética, mas isso não torna sua extração ambientalmente neutra. Os impactos dependem muito do tipo de depósito, método de lavra, tecnologia de beneficiamento e processamento, características químicas do minério, localização do empreendimento e medidas de controle adotadas. Entre os aspectos ambientais que podem estar associados aos projetos:
- Supressão vegetal e alteração do uso do solo: como em outras atividades minerais, a implantação de minas, acessos, instalações industriais e estruturas auxiliares pode modificar a cobertura vegetal e a paisagem.
- Movimentação de solo e geração de estéreis e rejeitos: separar pequenas concentrações de elementos de interesse pode exigir processamento de volumes consideráveis de material.
- Consumo e gestão da água: etapas de beneficiamento e processamento podem demandar água, tornando relevantes o balanço hídrico, a recirculação e o controle de efluentes.
- Uso de reagentes químicos: determinadas rotas de extração e separação utilizam processos químicos que precisam de sistemas rigorosos de armazenamento, operação, tratamento e controle.
- Riscos de contaminação: dependendo da composição do depósito e da tecnologia empregada, rejeitos e efluentes podem apresentar metais e outras substâncias que exigem gerenciamento adequado.
- Presença de elementos radioativos associados: alguns minerais portadores de terras raras, como determinadas monazitas, podem estar associados a tório e urânio. Isso não significa que todo projeto apresente o mesmo risco radiológico, mas a caracterização mineralógica e geoquímica é fundamental para definir os controles necessários.
Estudos científicos sobre mineração de terras raras também apontam riscos relacionados à acidificação do solo, lixiviação de metais e contaminação associada a determinados processos quando controles ambientais são inadequados. Por isso, falar apenas que esses elementos são necessários para "tecnologias verdes" é insuficiente.
Como o licenciamento ambiental entra nessa história?
Projetos de minerais críticos exigem avaliação ambiental compatível com suas características específicas. No caso das terras raras, um bom processo de avaliação precisa entender não apenas onde a mina será instalada, mas também qual é a mineralogia do depósito, qual rota tecnológica será utilizada, quais reagentes serão empregados, como ocorrerá a gestão da água, quais rejeitos serão produzidos e quais substâncias estarão presentes nesses materiais.
Também entram nessa análise temas tradicionais do licenciamento mineral: vegetação, fauna, recursos hídricos, qualidade do solo, emissões atmosféricas, ruído, comunidades afetadas, estruturas de disposição de resíduos e rejeitos, recuperação das áreas impactadas e fechamento de mina. É essa leitura técnica do processo antes de definir os controles que orienta o licenciamento ambiental na FRTB Consultoria Ambiental.
A própria Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos criada em 2026 incorporou princípios de responsabilidade socioambiental e desenvolvimento sustentável, além de prever medidas de prevenção, mitigação e compensação de impactos. Nesse contexto, rastreabilidade e gestão ambiental ganham importância: não basta saber de onde veio o minério, uma cadeia responsável precisa conhecer também como ele foi extraído, processado e transformado e quais controles ambientais e sociais foram adotados ao longo desse percurso.
Terras raras e transição energética: existe um paradoxo?
Existe uma questão que merece ser discutida com maturidade. Para fabricar parte das tecnologias usadas na redução das emissões de gases de efeito estufa, o mundo precisa de minerais, e produzir minerais gera impactos ambientais. Ímãs permanentes usados em determinados motores elétricos e aerogeradores são um exemplo. Isso cria um aparente paradoxo: a transição para tecnologias de menor emissão durante o uso pode exigir a expansão de atividades minerais que têm impactos ambientais em outras etapas do ciclo de vida.
A resposta não deveria ser simplesmente "minerar tudo" nem "não minerar". O desafio técnico é reduzir os impactos por unidade produzida, selecionar adequadamente as tecnologias de extração e processamento, melhorar a eficiência hídrica e energética, controlar rejeitos e efluentes, recuperar áreas degradadas e ampliar a circularidade.
Reciclagem também será parte dessa discussão. Ímãs, equipamentos eletrônicos e outros produtos contêm elementos que podem retornar à cadeia produtiva, e a política brasileira de minerais críticos passou a reconhecer a mineração urbana, com recuperação de materiais presentes em resíduos, especialmente eletroeletrônicos, como estratégia complementar de suprimento. Ela não elimina a necessidade de mineração primária no curto prazo, mas pode reduzir perdas e criar fontes secundárias de matérias-primas. Para entender como um resíduo vira insumo econômico, veja também Reciclagem dá dinheiro? Como resíduo vira renda.
O que realmente está em jogo para o Brasil?
O Brasil possui uma vantagem geológica relevante, mas a oportunidade econômica e tecnológica não será definida apenas pelo que existe no subsolo. Será definida também pela capacidade de pesquisar depósitos, desenvolver projetos economicamente viáveis, realizar licenciamento ambiental consistente, controlar impactos, dominar tecnologias de separação e purificação, desenvolver materiais avançados e criar uma indústria capaz de usar esses elementos. Em outras palavras: exportar matéria-prima e dominar uma cadeia de alta tecnologia são estratégias econômicas muito diferentes.
Como engenheira ambiental, vejo outro ponto que não pode ficar em segundo plano: se o Brasil pretende usar seus minerais críticos como parte de uma economia de baixo carbono, a qualidade ambiental da própria cadeia mineral precisará fazer parte dessa estratégia. Não existe contradição em reconhecer simultaneamente a importância econômica das terras raras e os impactos potenciais da mineração. A contradição seria defender tecnologias sustentáveis ignorando os impactos necessários para produzir seus materiais.
No fim, o que isso significa
As terras raras ajudam a explicar uma mudança importante na economia mundial: recursos minerais que antes eram pouco conhecidos pelo público passaram a ocupar espaço nas discussões sobre energia, tecnologia, indústria e soberania. O Brasil possui reservas expressivas e potencial geológico relevante, mas isso é apenas o início da cadeia. O verdadeiro desafio está em transformar conhecimento geológico em desenvolvimento tecnológico e industrial, mantendo critérios ambientais capazes de acompanhar essa expansão.
As terras raras podem representar uma oportunidade para o país participar de cadeias estratégicas ligadas à transição energética e à indústria de alta tecnologia, mas essa oportunidade dependerá de pesquisa, inovação, processamento, infraestrutura, qualificação profissional, governança, rastreabilidade e gestão ambiental. O que existe no subsolo importa, mas o que o Brasil será capaz de fazer com esses recursos, e como fará isso, pode importar ainda mais.
Perguntas frequentes
O Brasil tem terras raras?
Sim. Segundo o Sumário Mineral Brasileiro 2025 da ANM, o país possuía aproximadamente 11,4 milhões de toneladas de reservas provadas e prováveis de ETR contido em 2024, cerca de 13,9% do total mundial considerado na publicação.
Para que servem as terras raras?
Elas são utilizadas em ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, catalisadores, lasers, equipamentos médicos, telecomunicações, tecnologias de defesa e diversas aplicações industriais de alta tecnologia.
Terras raras são realmente raras?
Nem sempre. Alguns desses elementos são relativamente abundantes na crosta terrestre. A dificuldade está principalmente em encontrar depósitos com características favoráveis ao aproveitamento econômico e em separar elementos que apresentam propriedades químicas semelhantes.
Terras raras são usadas em carros elétricos?
Sim, especialmente em ímãs permanentes utilizados em determinados tipos de motores elétricos. Entretanto, não se deve confundir terras raras com os principais minerais empregados nas atuais baterias de íons de lítio, cuja composição pode envolver lítio, níquel, cobalto, manganês e grafita, dependendo da tecnologia.
Terras raras causam impactos ambientais?
A mineração e o processamento podem gerar impactos como alteração do solo, supressão vegetal, consumo de água, geração de rejeitos e efluentes e riscos de contaminação. A magnitude depende do depósito, do processo utilizado e dos controles ambientais adotados.
Qual a relação entre terras raras e transição energética?
Alguns elementos são essenciais para ímãs permanentes utilizados em motores elétricos e determinados geradores eólicos. Por isso, a expansão dessas tecnologias pode aumentar a importância estratégica das terras raras.
Por que o Brasil ainda não domina o mercado de terras raras?
Porque possuir reservas minerais não equivale a dominar toda a cadeia tecnológica. O desafio envolve mineração, beneficiamento, separação e purificação dos elementos, produção de metais e ligas, fabricação de ímãs e integração com indústrias de alta tecnologia.
Fontes e referências
- Agência Nacional de Mineração (ANM), Sumário Mineral Brasileiro 2025, com dados de reservas e produção brasileira. ANM
- Agência Nacional de Mineração (ANM), O que são minerais críticos e estratégicos? ANM
- Serviço Geológico do Brasil (SGB), SGB avança com pesquisas sobre potencial para terras raras na região do Cinturão Ribeira. SGB
- Ministério de Minas e Energia (MME), início dos estudos para a Estratégia Nacional de Terras Raras, janeiro de 2026 (cobertura jornalística). Agência iNFRA
- Presidência da República, Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026, Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Planalto
- CETEM/MCTI, REGINA II: PD&I para o Desenvolvimento Competitivo Sustentável de Processos e Produtos da Cadeia Produtiva de Terras Raras. CETEM
- CETEM/MCTI, Processamento e Aplicações de Ímãs de Terras-Raras para Indústria de Alta Tecnologia (INCT PATRIA). CETEM
- U.S. Geological Survey (USGS), Rare Earths Statistics and Information. USGS
- Journal of Hazardous Materials, Environmental impacts of rare earth elements mining and strategies for sustainable management: a comprehensive review. ScienceDirect
- Ecotoxicology and Environmental Safety, Leaching characteristics and environmental impact of heavy metals in tailings under rainfall conditions: a case study of an ion-adsorption rare earth mining area. ScienceDirect
Escrito por
Fabricia Rio BrancoEngenheira ambiental, CEO da FRTB Consultoria Ambiental e mais de 12 anos de experiência com licenciamento, gestão ambiental e energia solar. Saiba mais
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